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“As crianças abandonadas de hoje podem ser nossos algozes amanhã”

25/05/2007

O Corregedor Geral da Justiça, desembargador Orlando Perri, abriu o Encontro de Magistrados, Servidores e Técnicos das Varas de Infância e Juventude, na quinta-feira (24 de maio), ressaltando o compromisso de todos em construir um mundo melhor. Servidores e magistrados discutiram projetos voltados para a adoção.

 

“Em um instante qualquer da nossa existência devemos nos perguntar a que viemos nesta vida, em que medida cada um de nós está colaborando na construção de um mundo melhor”, disse o desembargador.

 

O discurso causou emoção na platéia, principalmente quando citou a magnífica obra de Madre Tereza de Calcutá. “Madre Tereza de Calcutá, na sua incansável luta contra a pobreza, ouviu, certa feita, alguém dizer-lhe que todo o seu trabalho era apenas um gota d’água no oceano das misérias, quando ela, do alto da sua sabedoria, respondeu dizendo que o oceano não seria o mesmo sem essa gota”.

 

O Corregedor Geral da Justiça disse ainda que a sociedade não pode discutir apenas os efeitos da violência urbana, mas deve ir à raiz do problema. “As nossas crianças, abandonadas e rejeitadas hoje podem ser nossos algozes de amanhã. Daí a nossa responsabilidade para com as milhares de crianças que abarrotam os orfanatos”.

 

Veja a íntegra do discurso do Corregedor Geral da Justiça.

 

Senhoras e Senhores:

 

Inicialmente quero dar as boas vindas a todos os que participam conosco deste encontro, que se reveste da máxima importância do ponto de vista social.

 

Estamos aqui engajados em uma tarefa que há de colaborar com uma parcela, mínima que seja, para a construção de um mundo pelo menos mais fraterno.

 

Diante da eternidade, passamos bem pouco tempo neste planeta; por isso, não podemos perder tempo com passos lentos e curtos, mas apressá-los e alargá-los.

 

Há homens que simplesmente passam pelo mundo, e outros que o marcam.

 

Em um instante qualquer da nossa existência devemos nos perguntar a que viemos nesta vida, em que medida cada um de nós está colaborando na construção de um mundo melhor.

 

Madre Tereza de Calcutá, na sua incansável luta contra a pobreza, ouviu, certa feita, alguém dizer-lhe que todo o seu trabalho era apenas um gota d’água no oceano das misérias, quando ela, do alto da sua sabedoria, respondeu dizendo que o oceano não seria o mesmo sem essa gota.

 

Pouco importa o construtor que somos. Se pudermos, cada um de nós, deixar um tijolo que seja, teremos contribuído para o progresso humano, e nossa vida, nossa passagem terrena, não terá sido em vão.

 

Cada um deve não simplesmente fazer a sua parte, mas fazer bem e o melhor que puder a sua parte, até para que as nossas ações não se assemelhem ao gesto de Pilatos, que lavou suas mãos numa demonstração de que fez o que poderia ser feito. E até hoje, passados mais de dois mil anos, a humanidade não conheceu mãos tão mal lavadas.

 

Por isso, neste encontro, antes de começarmos os nossos trabalhos, exorto-os a refletir sobre o que cada um de nós tem feito, de modo efetivo, para mudar um pouco do flagelo humano na área da infância e da adolescência, notadamente às nossas crianças e adolescentes abandonados.

 

A verdade é que a sociedade não pode mais continuar a voltar as costas ou se mostrar indiferente a esse grave problema. O preço, somos todos nós que pagamos, vítimas da violência que aterroriza nossas vidas, ameaçando, impiedosa e cotidianamente, nossos filhos, pais e outros entes queridos.

 

Quando o tema é violência, fala-se muito sobre efeitos, esquecendo-se sobre suas causas. Violência é uma palavra que a Lingüística classifica como uma nominalização. Nominalização é um processo de distorção da experiência que consiste em transformar o processo, a ação, no resultado que essa ação, esse processo dá origem, portanto, num nome. No nome do EFEITO que o PROCESSO gerou. Violência, então, é um efeito.

 

Qual o processo, qual a ação que origina a violência?

 

A ação de VIOLAR.

 

Sim, é o processo de violar que gera a violência. Aí está a origem da doença e o começo da resposta, da solução, da cura.

 

A ignorância sobre a questão tem levado a debates das mais variadas ordens, inclusive sobre a redução da maioridade penal, que o Congresso analisa como se fosse a panacéia para os males da violência.

 

Esquecem nossos administradores públicos que a violência tem, quase que invariavelmente, origem numa infância e adolescência marcada por abandonos materiais, afetivos, psicológicos, sociais etc.

 

A redução da maioridade penal, assim como a construção de mais presídios, inclusive de segurança máxima, o melhor aparelhamento das nossas polícias, com armas, veículos e equipamentos tecnológicos sofisticados, são eficazes para o controle da violência, mas não à solução do problema.

 

O que combate essa praga que mata e mutila corpos e almas, depende, como acontece com todas as doenças, da descoberta da origem da violência.

 

Nossos avós diziam: É preciso cortar o mal pela raiz!

 

Cortar o mal pela raiz implica em identificar a sua origem.

 

Para resolver um problema é preciso formular bem a pergunta. E a pergunta é: Qual a Raiz da Violência?

 

A resposta é única e irretorquível: o abandono das nossas crianças e adolescentes.

 

As crianças violadas ontem são os adolescentes, os jovens e os adultos violentos de hoje. E já são, ou serão, no futuro, as mãos que embalam ou embalarão os berços...

 

Todos nós sabemos que na infância de um estuprador ou pedófilo existe uma história de violação sexual. E no maior número de vezes, executadas por um membro da família, que é, SEMPRE, um jovem ou adulto que foi violado; que dentro de um assassino, de um agressor existe uma criança agredida, violada; que o assaltante de hoje, foi uma criança violada, roubada de seu direito de ser alimentada, de ter um teto, de ter espaço para viver e brincar, roubada de seu direito de ser educada e amada, de seu direito de ser protegida.

 

Somos nós que escrevemos o nosso destino. O nosso futuro depende das nossas ações de hoje, porque o presente sempre será o resultado do somatório daquilo que semeamos no passado.

 

As nossas crianças, abandonadas e rejeitadas hoje, podem e serão os nossos algozes de amanhã.

 

Daí a nossa responsabilidade para com as milhares de crianças que abarrotam os orfanatos, que precisam de amor, carinho e afeto, que são combustíveis imprescindíveis para movimentar a longa jornada da vida.

 

E cada um de nós pode agir como pacificador social na medida em que pudermos esvaziar esses depósitos de miséria humana que chamamos de orfanatos.

 

E a adoção é o processo que, imitando a natureza, pode restabelecer dignidade e felicidade aos nossos irmãos abandonados. Quem acende uma vela ao próximo, é o primeiro a se iluminar.

 

Assim, concito-os a, nesses dois dias de trabalho, debatermos os problemas que hoje dificultam o processo de adoção, buscando soluções ou alternativas que auxiliem a nossa ingente missão de pacificador social.

 

Nossa tarefa é árdua nessa área.

 

Mas se cada um de nós puder contribuir, de alguma forma, para retirar do abandono uma única criança ou adolescente, propiciando a ela, pela adoção ou apadrinhamento, o prazeroso calor de um lar, nossa existência terrena já terá valido a pena, e os céus, certamente, exultarão de alegria e nos concederá a recompensa devida e merecida.

 

Muito obrigado

  

(Corregedor Geral da Justiça, desembargador Orlando de Almeida Perri)